Colunistas
Sexta, 22 de Abril de 2016 04h45
SÉRGIO HENRIQUE DA SILVA PEREIRA: Jornalista, professor, produtor, articulista, palestrante, colunista. Articulista nos sites: Academia Brasileira de Direito (ABDIR), ABJ (Associação Brasileira dos Jornalistas), Âmbito Jurídico, Conteúdo Jurídico, Editora JC, Fenai/Faibra (Federação Nacional da Imprensa), Investidura - Portal Jurídico, JusBrasil, JusNavigandi, JurisWay, Observatório da Imprensa.



A Petrobras é a ponta do iceberg da banalidade do mal global

Em meio à crise política em quase todos os partidos políticos, após a Lista Negra da Odebrecht, e as investigações, diuturnas, do Ministério Público e da Polícia Federal, a Nação brasileira, que já percebia algo de devassidão entre público e privado, parece que começar a acordar do canto da sereia. O canto da sereia é a indolência do povo em não participar politicamente. Já dizia Sócrates que a vida humana, em todos os sentidos, que a política estava em tudo, enquanto da presença humana. Política, então, não é só eleger candidatos, e esperar que eles façam as lições democráticas.

E esse é o maior entrave para o Brasil, a Nação espera que alguém faça por ela, sem que ela se mexa um dedo se quer. A pintura no teto da Capela Sistina é constituído por um extenso afresco, cujo autor da belíssima pintura fora Michelangelo. No Brasil ela poderia ser representada assim: Adão, o povo [capacidade eleitoral ativa]; Deus, os cidadãos eleitos por Adão. Deus [os agentes políticos] deve fazer de tudo para que o paraíso alcance à Nação. Se Deus não se esticar para ajudar Adão, este [Nação] negocia com o Diabo, para conseguir, sem trabalho, o que precisa. “Faça por onde, que eu te ajudarei!”, a célebre frase gnóstica evidencia o princípio da existência de qualquer ser vivo, nada existe por mágica, a não ser nos filmes. É necessário agir!

Como agir custa energias [calorias], o mais “sensato” e poupá-las, a negociação com Satanás é mais “fácil”. Ora, vender a alma [o poder soberano da Nação aos ímprobos políticos] é bem melhor do que pedir a Deus. Deus dá, mas o trabalho tem que ser feito pelo consulente. O diabo não cobra, inicialmente, nada, mas os juros são altíssimos após o consumo do que foi tratada, a alma. A alma vendida é a negociação entre eleitor e candidato. O eleitor vende seu voto, para depois conseguir cargo ou emprego públicos, de livre nomeação, ou por uma festividade regada de cachaça, cerveja e churrasco. Aos mais exigentes [elite inidônea], a negociação deve garantir percentagens maiores, como contribuições [caixa dois], concessão de serviço público, edificações em áreas de preservação ambiental, obras públicas desnecessárias, como construções de estádios futebolistas, praças públicas, museus etc.

Não é difícil retirar dos âmagos subterrâneos dos pensamentos dos administradores públicos quando se tem abalizados doutrinadores do Direito Administrativo a desnudar intenções imorais. Assim, leciona Maria Sylvia Zanella Di Pietro:

“não é preciso penetrar na intenção do agente, porque do próprio objeto resulta a imoralidade. Isto ocorre quando o conteúdo de determinado ato contrariar o senso comum de honestidade, retidão, equilíbrio, justiça, respeito à dignidade do ser humano, à boa fé, ao trabalho, à ética das instituições. A moralidade exige proporcionalidade entre os meios e os fins a atingir; entre os sacrifícios impostos à maioria dos cidadãos. Por isso mesmo, a imoralidade salta aos olhos quando a Administração Pública é pródiga em despesas legais, porém inúteis, como propaganda ou mordomia, quando a população precisa de assistência médica, alimentação, moradia, segurança, educação, isso sem falar no mínimo indispensável à existência digna”.

As ações dos gestores públicos sempre devem priorizar as emergências, isto é, sempre é a ação de prover necessidades do povo [pária], como esgoto canalizado, água potável, coleta de lixo, serviços de saúde, transporte público, pistas de rolamento asfaltadas, policiamento. Esses serviços públicos devem ser prestados eficientemente — EC nº 19/98, principalmente porque o Brasil é um dos piores países em termos de desigualdades sociais do planeta, mesmo com os avanços alcançados desde a promulgação da Carta Cidadã de 1988. Infelizmente, a máquina da propaganda política se aperfeiçoou. Se a máquina da propaganda funcionou muito para as eleições, por exemplo, de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek, bem mais elaboradas foram as propagandas nas eleições pós-ditadura.

O diabo [público e privado inidôneos], então, se aproveita da miséria, miséria esta que foi construída e perpetuada pela Arquitetura da Discriminação. Nela, a máquina antropofágica mói pessoas, os párias [negros, pessoas com necessidades especiais, nordestinos, mestiços, indígenas]. Na prerrogativa de ajudar os párias, tão notório de todos os brasileiros, muitas promessas de campanha, sem que elas sejam aplicadas no decurso do mandato. Da necessidade surgem grandes negócios fraudulentos, os quais transgridem a dignidade humana, dos párias, e enriquecem grupos específicos, a elite social e empresarial, nacional e estrangeira, e, claro, os políticos.

O Brasil sempre foi alvo de mãos externas, que fique claro. Por exemplo, no Golpe Militar de 1964, Inglaterra e EUA apoiaram, financeiramente, e com escolarização dos militares às práticas de torturas, os “patriotas” militares tupiniquins contra o comunismo nas Américas. É preciso esclarecer que o Golpe Militar tupiniquim é a ponta do iceberg de um dos maiores golpes político na América do Sul, a Operação Condor. Recentemente, Barack Obama, presidente dos EUA, se desculpou, publicamente, em solo los hermanos, por seu Estado apoiar a ditadura na Argentina. O golpe nas Américas foi resultado dos entraves políticos, em 1962, entre EUA e ex-União Soviética, a chamada Crise dos Mísseis Cubanos. Não poderia ser diferente o Golpe nas Américas, e a adesões dos países da América do Sul aos EUA, afinal, se algum país da América do Sul apoiasse a URSS, os EUA atacariam, de alguma forma; como aconteceu com Cuba. Outro ponto fundamental à adesão dos militares da América do Sul às investidas dos EUA foi o dinheiro emprestado. Não é à toa que após o término da Guerra Fria, os países que apoiaram o Capitalismo na América do Sul ficaram com dívidas e inflações colossais. E o empobrecimento da URSS? Mesmo que a guerra bélica desse lucro, como também deu lucro aos EUA, a sua economia não era de Capitalismo, nos moldes de fabricação de produtos de péssima qualidade. A guerra tem vários matizes. A geração de dividendos, na história humana, sempre foi por confiscos, genocídios, colonizações, escravidão.

É necessário também relembrar a Crise de 1929 [2], a quebra da Bolsa de Valores nos EUA. De lá para cá, a economia se insurgiu contra o ecossistema e os consumidores — de forma mais abrangente, contra os direitos humanos. Os produtos produzidos passaram a ter diminuição na qualidade e, consequentemente, na durabilidade [1]. A ideia era simples, produto com menor vida útil favorece o crescimento econômico e a manutenção do emprego. Eis o consumismo. A Globalização, pelo neocolonialismo, parecia à salvação da economia mundial, afinal, todos os países ganhariam dinheiro para poderem melhorar suas economias internas. Transnacionais se instalaram, promessas de parcerias público privado e privatizações em larga escala. África, o continente que sempre foi o berço da maquiavelice. Desde a colonização, o solo, os cidadãos africanos, as riquezas, a mão de obra, tudo fora explorado para enriquecer Nações afora. A Globalização deu um ar de defesa aos direitos humanos, todavia neocolonialismo muito mais perverso que o pretérito. Sem correntes físicas, as populações africanas são escravizadas — trabalho escravo — de várias formas, sem perdoar faixa etária, condição de saúde. Suas riquezas são exploradas, diuturnamente, sem que haja mobilização global para conscientizar as Nações sobre o perigo do consumismo perverso. As publicidades também têm parcelas de culpa, a ostentação em possuir par ser [status social positivo]. Subliminarmente exploram as fraquezas psicológicas dos seres humanos, conforme as ideologias psicológicas dos respectivos locais, regiões. Orgulho, vaidade, complexo de inferioridade, sentimentos explorados pelas publicidades. Uma aliança entre agências publicitárias e fornecedores de produtos e serviços. Imagine o seguinte, certo país proíbe o tabagismo, nos navios nacionais em águas nacionais. Os fumantes se sentem excluídos pela legislação antitabagismo. Ora, é simples burlar a lei antitabagismo, em águas internacionais, por que a lei não especificou, não é proibido fumar nos navios nacionais. Todos os cidadãos podem fazer o que as leis internas de seu país não os proíbam de fazer. Ora, os fornecedores fabricantes, através de seu quadro jurídico, pedirão que as agências de publicidade criem chamadas persuasivas para os tabagistas viajarem num cruzeiro maravilhoso, em águas internacionais, com direito a fumar, despreocupadamente. O Estado nada poderá fazer, já que os administrados podem fazer o que o Estado não proíbe.

O que pretendo dizer é que as leis podem ser construídas para beneficiar grupos empresariais e governantes, sem a mínima preocupação com o bem-estar social, econômico e psicológico de todos os seres humanos. O tabagismo, por exemplo, antes das leis antitabagismo, alerta soado pela OMS, não era considerado nocivo à saúde humana. Campanhas publicitárias incentivavam o consumo de tabaco: crianças fumando, Papai Noel fumando, médicos recomendando o hábito de tragar etc. Importante explanar que as indústrias tabagistas, e qualquer indústria que sabe que certos produtos e substâncias são potencialmente prejudiciais à saúde humana compram Governos — recomendo assistir O Informante: “Em 1994, ex-executivo da indústria do tabaco deu entrevista bombástica ao programa jornalístico '60 Minutos', da rede americana CBS. Dizia que os mandachuvas da empresa em que trabalhou não apenas sabiam da capacidade viciadora da nicotina como também aplicavam aditivos químicos ao cigarro, para acentuar esta característica. Na hora H, porém, a CBS recuou e não transmitiu a entrevista, alegando que as consequências jurídicas poderiam ser fatais. Baseando-se nesta história real, O Informante narra a trajetória do ex-vice-presidente da Brown & Williamson Jeffrey Wigand (Russell Crowe) e do produtor Lowell Bergman (Al Pacino), que o convenceu a falar em público”. [3]

Se o que foi dito até o parágrafo acima for falácia, por qual razão as Nações Unidas editaram a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção? Depreende-se que a corrupção, a partir do neoliberalismo, e consequentemente a globalização, desencadeou crises políticas, econômicas e violações diversas, mais elabotrradas, aos direitos humanos. Na década de 1990, processos de acordos de ação conjunta à corrupção [suborno, por exemplo] foram firmadas, todavia a corrupção era muito mais técnica do que se pensava. Países da Ásia e do Oriente Médio serviam como berços esplendorosos às inúmeras violações de direitos humanos provocadas pelos fornecedores de produtos e serviços, principalmente, transnacionais. A cooperação mundial tinha que ser feita para evitar que conluios público e privado destruíssem a já precária materialização dos direitos humanos, globalmente. Fornecedores diversos, de armas bélicas, de agrotóxicos, de alimentos, enfim, cartéis são formados, governos são comprados, a vida humana jamais foi tão banalizada desde a Segunda Guerra Mundial

Primoroso dizer que graças à liberdade de imprensa, jornalistas investigativos, homens públicos probos e cidadãos comuns tão somente comprometidos com a verdade, o bem-estar geral, como à saúde física e emocional, e até além fronteiras, é possível, ao menos, controlar os tentáculos de grupos desumanos, que destroem a flora e a fauna. No entanto, é preciso cooperações internacionais de Nações mais ricas para ajudar as mais pobres, sem explorar as riquezas transnacionais. As Nações, internamente, também devem se esforçar para criar mecanismos eficientes de diminuição da corrupção. A conscientização quanto aos malefícios da corrupção, seja público ou privado, a formação de cartéis ou trustes, deve partir também de organizações da sociedade civil. No mesmo diapasão, as diferenças ideológicas — Capitalismo versus Socialismo; religiosas; étnicas; morfológicas; linguísticas; entre classes sociais — devem ser deixadas no passado, antes do século XXI. Se tais concepções teóricas, da máquina antropofágica, continuarem, o aperfeiçoamento da escravidão humana atingirá patamares inimagináveis, às quais superarão até as imaginações dos mais abalizados cineastas, cientistas políticos etc.

A manipulação de informações também é o imenso buraco negro a sugar tudo que está próximo. A liberdade de expressão, não somente no Brasil, tem servido para criar intrigas, perseguições, endeusamento de pessoas e grupos, segregações. Não há na liberdade de expressão e de imprensa conteúdos desapaixonados por partidos políticos, ideologias racistas, preconceituosas. O que há é informações vertiginosas para se proteger grupos e ideologias, não a substancialidade do espírito da liberdade de expressão e de imprensa: Nações comprometidas com os direitos humanos. Direitos que visem colaborações desinteressadas nas riquezas transnacionais. A troca de favores entre Nações visão aos interesses unilaterais, ou seja, ninguém quer perder. O quadro é tão caótico, que muros estão sendo, ou irão ser, erguidos em pleno século XXI, como entre Israel e Palestina, EUA e México etc. A corrupção se mostra sofisticada graças à indolência dos nacionais em não vigiar seus governantes, as mídias defensoras unicamente de ideologias, não dos seres humanos, de publicidades persuasivas ao consumismo destruidor da flora e da fauna. A responsabilidade não é de um grupo de cidadãos, de um grupo de partidos políticos, de um grupo de Nações, mas de todos os seres humanos no orbe terráqueo.

A máfia, por exemplo, se infiltra em países cujas populações vivem sob a égide das diferenças sociais, às quais criam desigualdades sociais abissais. Dessas desigualdades sociais, a vivência é amarga, dolorosa, desumana. Pessoas e grupos diversos lutam, desabonam quaisquer ações de universalização de direitos humanos. Papa Francisco já sentiu o quão dispendioso é tentar unificar a humanidade. Os defensores dos direitos humanos também sabem disso. A dicotomia é conseguida pela perpetuação de retrógradas filosofias do poder pelo poder. A aquisição do poder [status positivo] é mais exacerbada nas sociedades com desigualdades sociais mais acentuadas, todavia, não é tão somente a desigualdade econômica que assola as relações humanas, mas as ideologias à discriminação. Mesmo em sociedade cujas desigualdades sociais são extremas, ainda assim é possível encontra grupos de pessoas humanísticas. A cooperação entre esses grupos se faz não pelo interesse unilateral, mas pelo interesse conjunto, a felicidade e o bem-estar do vizinho representam a solidariedade, a ajuda mútua, o respeito. Quando impera o individualismo, a grandiosidade dos feitos a exalta o ego, a individualização se faz, transforma a sociedade. A ideia de união não passa de escrito em leis de papéis, em conversas filosóficas em torno de fogueiras ou em dias chuvosos.

Os jovens, planetariamente, são ensinados a vencer na vida, vida está plena de sadismo, egolatrias. As crianças são ensinadas a odiarem as diferenças, a perseguirem os desiguais, os estranhos. Linguística, maneira de comer, de se vestir, tudo esquadrinhado em particularidades incompatíveis com a diversidade cultural no orbe terráqueo. Os jovens são persuadidos pelas publicidades de que só existem pessoas famosas e sorridentes, ricaços, perfeitas em rostos e corpos, inteligências iguais ou superiores à de Einstein. Nessa construção do Véu de Ísis, quando as crianças são adolescentes, se deparam com ambientes desiguais cujas estruturas sociais são discriminadoras. Assim, para se manterem dentro de algum grupo humano — instinto de sobrevivência — assumem personalidades fabricadas; a liberdade íntima é sufocada, pelo medo de errar, de ser diferente, de ser portador de alguma anomalia, assim catalogada pelo grupo considerado “perfeito”. Quando adultos, as angústias vivenciadas nas fases infantojuvenis se manifestam. A disputa pelo poder é uma compensação da frágil personalidade desconstruída, dilacerada ao longo da vivência infantojuvenil. A autoafirmação, quando principalmente em sociedades extremamente desiguais, se faz à luz da sociedade, ou à sombra, quando os atos são legais, mas imorais [desumanos]. Entender essa nova concepção de aprendizado, de valores, e exposição ao mundo externo é seguradamente o caminho que as Nações devem apreciar e criar mecanismo de universalizações à solidariedade no orbe. Pode parecer verborragia ou discursos tão somente intelectuais, não os são.

A Santa Inquisição, as Cruzadas, a Revolução Francesa, as colonizações nas Américas e na África — esta sob o chancelamento do darwinismo social da Apartheid —, a Independência dos EUA. A Revolução Industrial, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a Guerra Fria, e suas consequências mundiais, como, por exemplo, o terrorismo, não podem ser descuradas de quaisquer reuniões, na ONU, na Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), de qualquer órgão internacional de defesa dos direitos humanos.

A estrutura da banalização do mal

Hannah Arendt contribuiu muitíssimo com seus pensamentos sobre as atrocidades ocorridas no século XX, a Segunda Guerra Mundial. Contudo a sua contribuição ainda continua tão viva quanto antes.

“Entendam, que a tradição ocidental parte do pressuposto de que os piores atos que o homem pode cometer resultam de seu egocentrismo. Mas, nesse século [XX] em que vivemos, o mal se revelou de uma forma muito mais radical do que se podia prever. Sabemos agora que o pior mal, o mal radical, nada tem a ver com motivos humanamente compreensíveis e imorais como o egocentrismo. Pelo contrário, está ligado principalmente ao seguinte fenômeno: o de tornar o homem supérfluo.

O sistema reinante nos campos de concentração visava a convencer os prisioneiros de que eles eram supérfluos antes de serem mortos. Nos campos, as pessoas tinham que aprender que a punição aplicada a elas não se devia a um delito. Que a exploração não se dava para fazer vantagens a ninguém, e que o trabalho não servia para gerar lucro. O campo é um lugar ode cada fato, cada gesto, por de definição, se despojava de qualquer sentido. Em outras palavras, cria-se o absurdo.

Se for verdade de que na fase final do totalitarismo surge um mal absoluto, absoluto porque não pode ser imputado à razão humana, logo é igualmente verdade que sem ele, sem o totalitarismo, nunca se teria conhecido a natureza do mal radical”. [trecho do filme Hannah Arendt e Eichmann em Jerusalém]

Trazendo o pensamento filosófico de Hannah, o totalitarismo no século XXI não se faz por armas em punho, por campos de concentrações, mas por ideologias além do egocentrismo. Vivemos, em pleno século XXI, um totalitarismo disfarçado de democracia cujas regras são escritas para favorecerem grupos políticos e empresarias ávidos pelo poder. O mal radical é impor, despercebidamente, quando não há o discernir profundo de cada cidadão do orbe, condutas fabricadas de comportamentos. A eugenia nunca foi tão aplicada no século XXI pelos apelos emocionais aos corpos surreais, os quais são moldados para atender modismos. Pessoas ficam neuróticas ao ver alguma “deformação” ou “imperfeição” em alguma região corporal. O totalitarismo da beleza, principalmente feminina, causa consequências à saúde física e psíquica.

O totalitarismo ao consumismo também é outro mal absoluto, mal radical. Para se gerar riqueza [Produto Interno Bruto] é necessário que a humanidade consuma além de suas necessidades reais. Os apelos publicitários invocam a “superioridade” de classes sociais pelo possuir a bolsa do renomado estilista, e a pirataria é o outro lado da moeda, pois o similar dá a sensação de se sentir parte de um grupo “superior”. Sem qualquer responsabilidade ao meio ambiente, o consumismo hipnotiza indivíduos deste pequeno orbe, sem que a razão se faça perguntar “Quem fabrica?”, “Em quais condições de trabalho?”, “Contamina o solo, o ar e a água?”. O simples gole de água passa a ser supérfluo e de baixo reconhecimento social, a bebida alcoólica passa a ser o sagrado, o diferenciador de classes sociais.

O ser humano passou a ser supérfluo. Cada ser humano nasce para consumir, para conquistar uma posição social, para gerar riqueza, para gerar descendentes geneticamente propícios ao desenvolvimento Capitalista neoliberal. A humanidade pelo totalitarismo da aparência da superioridade é educada de que a vida humana em si é descartável — ninguém é insubstituível —, sendo as empresas, os partidos políticos, com suas concepções teóricas, as marcas de camisas, de celulares etc. mais importantes que o próprio ser humano.  Os modernos campos de concentração são as estruturas educacionais de que a riqueza esta acima da vida, em todos os sentidos. A usura é largamente aplicada, como sendo uma forma “honesta” de garantir as perdas econômicas dos credores. Assim, quando o cidadão pega empréstimos bancários, por exemplo, não poderá dizer que foi lesado — cometido um delito do credor, e apoiado pelo Estado — quando perde seus patrimônios e fica na sarjeta. Assim, não houve uma punição do credor ao devedor, não houve vantagem e exploração daquele a este.

No campo de concentração moderno, os administrados aprendem que os subsídios dos agentes públicos não é um delito, não oferece lucro a eles e, principalmente, não há exploração da mão de obra dos proletariados que, através de suas energias, mantêm o luxo e o conforto de uma casta social [política].

Da mesma forma, o sistema Capitalista [desumano] educa a humanidade de que se pode conseguir conforto material com o árduo trabalho, que o empreendedorismo representa a meritocracia. Todavia, esse sistema, frágil e ganancioso, traz vantagens e lucros colossais para os especuladores, para as Nações que exploram Nações. O delito é cometido, mas não reconhecido publicamente, porque a economia mundial é flutuante, improvável. Nesse sistema de imprecisão, as pessoas aprendem a obterem vantagens pessoais, mesmo que alguém seja prejudicado, pois o mundo é dos espertos. 

O campo de concentração neoliberal, então, torna cada ser humano supérfluo, um ser vivo despojado de qualquer sentido em sua vida, mas apenas ter algo que lhe possa dar sentido existencial. O absurdo surge, o delito aos direitos humanos passa a ser trivial, o lucro conseguido pela corrupção não explora, não mata, não fere, não dilui o verniz civilizatório. O troglodita, então, ressurge; não como seus antecessores nos primórdios humanos, mas condicionado a punir, a explorar, a tirar vantagens, a cometer delitos, sem qualquer razão, apenas pelo automatismo do campo de concentração neoliberal, mundial.

No entanto, o campo de concentração também tem seu aspecto religioso [fanatismo]. Sem qualquer justificativa real, os doutrinados agem sob ordens, como se estas ordens [educação] fossem insofismáveis — porque não se dá tempo para os aprendizes pensarem por eles mesmos.

A prostituição contemporânea não é tão somente consequência da miséria econômica ou financeira, mas produto do campo de concentração do supérfluo. Crianças e adolescentes se prostituem, mesmo de classes sociais, média ou alta, para terem roupas, carros, motos, relógios de grife. Crianças e adolescentes vendem seus corpos sem qualquer responsabilidade quanto às doenças sexualmente transmissíveis e gravidez precoce.

O campo de concentração contemporâneo, planetariamente, não possui muros físicos, mas muros psíquicos no inconsciente coletivo, de todos os seres humanos. A vida em si é efêmera; a vida ao status sociais, não o mero status da riqueza, mas o status do possuir, pelo simples possuir, é o sentido existencial. A educação do supérfluo torna a humanidade vazia de sentimentos ao próximo. O viver é mecânico: os sentidos físicos, assim como a imagem pessoal ao grupo, não é um meio, mas um fim existencial. A morte precoce para se alcançar poder status é tão entorpecente quanto o próprio ar que se respira.

A Lava Jato apenas evidenciou um quadro caótico planetário. Não há sentimentos de compaixão ao próximo, muito menos egolatria em possuir, mas o sentido mecanizado, doutrinador, ao supérfluo. Destarte, pessoas cometem crimes, sem que os considerem crimes à humanidade; a apropriação de um patrimônio, pela usura, não é um mal em si, mas um direito, mesmo que a outra pessoa fique na sarjeta. As perseguições políticas, religiosas e étnicas também não representam um mal em si, apenas são atos, mecanizados, contra concepções ideológicas, e não contra pessoas. Porque o ser humano é supérfluo.

Hannah Arendt, no julgamento de Eichmann, enxergou além do prisma comum, de se condenar tão somente uma pessoa, ou grupos de pessoas, pelas suas características culturais. Hannah Arendt também desentranhou uma pergunta inquietante: o que fizeram os líderes judeus para se evitar a morte de milhões nos campos de concentrações? Da mesma simetria filosófica de Hannah Arendt, o que os líderes mundiais estão fazendo para que os seres humanos não sejam considerados supérfluos? Quais a iniciativas substanciais para torna os Estado em Estados Humanísticos, cujas políticas internas e externas visam pessoas e não riquezas?

Mais além, o que cada sociedade organizada, mundialmente, está fazendo para que o ser humano não seja um objeto supérfluo? O que os donos de empresas, sejam fornecedores [produtores ou distribuidores], estão fazendo para que seus funcionários não se sintam supérfluos, e que cada funcionário não considere supérfluo o companheiro de trabalho ao lado da mesa? O que os donos de empresas de marketing estão fazendo para que a humanidade não se sinta supérflua por existir, mas seres humanos dotados de sentimentos valorativos à igualdade étnica, religiosa, morfológica? Quantos seres humanos, no orbe terráqueo, se assemelham à Eichmann pela banalidade do mal?

https://www.youtube.com/watch?v=OkESaqHiX3U

Notas:

[1] — YouTube. Entendendo a Crise de 29 (Dublado). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CuFXVtrkA1M

[2] — YouTube. A História Secreta da Obsolescência Planeada [Legendado PT] (720p). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5tKuaOllo_0

[3] — Adoro Cinema. O Informante. Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-22767/

Referências:

Adoro Cinema. Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento. Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-23980/

ARENDT ,Hannah. Julgamento de Eichmann. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OkESaqHiX3U

BBC. Unilever and Procter & Gamble multados. Disponível em: http://www.bbc.com/news/business-13064928

Babymilkaction. Disponível em: http://info.babymilkaction.org/

Convergence Alimentaire. Disponível em: http://convergencealimentaire.info/

Folha de São Paulo. Globalização ajuda a agravar trabalho escravo, diz OIT. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u59585.shtml

Polícia Federal. Estatísticas e Operações. Disponível em: http://www.pf.gov.br/agencia/estatisticas/operacoes

Veja. Na globalização, escravos fabricam os produtos que são vendidos aos desempregados. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/na-globalizacao-escravos-fabricam-os-produtos-que-sao-vendidos-aos-desempregados

VAZVAZ, Camila. Coelhinho da páscoa, que trazes pra mim? Trabalho infantil da Costa do Marfim. Disponível em: http://camilavazvaz.jusbrasil.com.br/artigos/317112418/coelhinho-da-pascoa-que-trazes-pra-mim-trabalho-infantil-da-costa-do-marfim

REUTERS. Johnson & Johnson vão pagar US $ 78 milhões para resolver acusações de EUA e Reino Unido. Disponível em: http://www.reuters.com/article/us-jj-bribery-idUSTRE7374ZB20110408

The New York Times. França enfrenta um problema que cresce e cresce: gordo. Disponível em: http://www.nytimes.com/2006/01/25/international/europe/25obese.html?_r=2&

WILKINSON, Richard; PICKETT, Kate. O Espírito da Igualdade – Por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor. Coleção: Sociedade Global. Nº na Coleção: 40. Data 1ª Edição: 20/04/2010. Nº de Edição: 1ª. Editora Presença.



Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: PEREIRA, Sérgio Henrique da Silva. A Petrobras é a ponta do iceberg da banalidade do mal global. Conteúdo Jurídico, Brasília-DF: 22 abr. 2016. Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/?colunas&colunista=50601_Sergio_Pereira&ver=2400>. Acesso em: 20 out. 2017.

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